sexta-feira, abril 11, 2014

A obsolescência da Educação - Manuel Castells




"Todo o sistema de ensino está organizado para não dar poder, para fazer dos estudantes objetos submissos que tenham que aprender a informação que seu professor aprendeu na semana passada."

- CASTELLS, Manuel 


Manuel Castells, sociólogo espanhol, analisa o sistema de ensino contemporâneo na era da rede. De acordo com Castells, além de informar, a escola sempre interpretou outro papel: transmitir os valores dominantes e as formas de poder - as normas que as crianças precisarão aprender para viver em sociedade. Michel Foucault já falava sobre isso em seu livro "Microfísica do Poder", onde destaca-se:

Como Foucault (1977, p. 155-156) específica, o “(...) edifício da Escola devia ser um aparelho de vigiar (...)”, mas esse aparelho necessita para a eficácia da disciplina de uma vigilância hierárquica, “(...) o olhar disciplinar teve de fato, necessidade de escala (...). É preciso decompor suas instâncias, mas para aumentar sua função produtora. Especificar a vigilância e torná-la funcional.”

Nessa perspectiva a vigilância se efetiva na escola com a presença do diretor, dos vice-diretores, da supervisão pedagógica, da orientação educacional, dos professores e finalmente dos alunos.

Essa hierarquia fundamenta um controle, “(...) um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior ‘adestrar’; ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor” (FOUCAULT, 1977, p. 153).Esse poder disciplinar não procura reter as forças, mas sim interligá-las, multiplicá-las e utilizá-las, sua consolidação utiliza-se dessa vigilância hierárquica e outros meios coercitivos de punição.

A entrada na escola dos alunos só é permitida se estiverem uniformizados, já na portaria entregam uma “carteirinha” de identificação para fiscalização do comparecimento, os alunos só podem sair da classe em horário de aula munidos com o cartão do professor, essas são algumas das normas sobre circulação no interior do estabelecimento escolar.

Esse controle rigoroso aliado a outras regulamentações forma um sistema punitivo, este, composto por dispositivos disciplinares que fazem funcionar normas gerais da educação. Essas normas permitem a medicação dos desvios e a redução desses se daria pela aplicação de“(...) micropenalidades do tempo (atrasos, ausências, interrupções das tarefas), da atividade (desatenção, negligência, falta de zelo), da maneira de ser (grosseira, desobediência), dos discursos (tagarelice, insolência), do corpo (atitudes incorretas, gestos não conformes, sujeira), da sexualidade (imodéstia, indecência) (FOUCAULT, 1977, p. 159).

(Fonte:  http://www.urutagua.uem.br/005/05edu_borges.htm)


Castells, porém, argumenta que a obsolescência destes papeis nunca foi tão grande. Primeiramente, porque 80% da informação mundial está contida na Internet. Segundo, porque as instituições de ensino estão preparando "objetos submissos", que não podem ultrapassar o conhecimento do professor, que não deve ser desafiado, algo visto na proibição do uso da web nas salas de aula. Ou seja, as relações verticais de poder seguem perpetuadas e a interação e a construção conjunta do conhecimento seguem negadas. 



Eu, como educador, e assim como Castells, tenho muita satisfação em ser "corrigido" pelos meus alunos. Não sou detentor de um saber mágico e sobrenatural. Não tenho o dom de ter todas as informações do mundo atualizadas o tempo todo dentro da minha mente e, como ser humano, não posso estar a par de tudo que acontece à minha volta, nos diversos cenários onde estou imerso. Seria muita arrogância e estupidez proibir que meus alunos me interrompessem, ou que eles buscassem na internet informações adicionais sobre aquilo que estou mostrando a eles, tendo em vista que eu mesmo tiro da internet às informações necessárias para minhas aulas. Seria uma enorme demonstração de ausência de bom senso e coerência impedir que meus alunos estivessem conectados ao mundo durante minhas aulas, pois todo o conhecimento do mundo cabe dentro de um smartphone, e, se eles utilizam estes novos meios de comunicação de massa para produzirem ou buscarem mais conhecimentos, mesmo que isso me imponha mais e mais desafios como educador, é gratificante para mim, pois assim como Castells, gosto de aprender, e serei sempre um aluno, palavra que - diferente do que dizem por aí -  não quer dizer "sem luz", mas "discípulo". Serei sempre um aluno em busca do conhecimento. Minha lápide será meu diploma. 



Divida

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